quinta-feira, 24 de maio de 2012

                          Depois que morre vira santo

Enquanto a pessoa está viva, corada e saltitante nem se ouve falar do ser. Tampouco é valorizada enquanto está em nosso meio. O que fez e o que deixou de fazer. É uma existência quase invísivel, a não ser pelos fofoqueiros que sabem mais da sua vida do que você próprio e aqueles que só sabem julgar. Em vida a pessoa é arrogante, egoísta e cheia de manhas e depois que morre vira santo. Só faltam beijar os pés do morto e iniciar a canonização. A pessoa morre e surguem amigos e conhecidos do além. No velório sempre tem aquela velha fofoqueira que adora apertar bochechas dizendo pros filhos do falecido: “se lembra te mim? Eu te pegava no colo quando era desse tamanhinho” e mostra com a mão o “tamanhinho”. Te contam histórias que juro por Deus é mais esfarrapada que desculpa e história de pescador e é aquele falatório. “Era um homem tão bom”, “nunca fez nada pra ninguém”, “era quase um santo”. Pura mentira. Falsidade borbulhante.
  A vida de uma pessoa só se faz juz depois que ela já está com o pé na cova, no caso, os dois pés e o resto do corpo. Só se ganha um tiquinho de prestígio quando já está lá com Papai do Céu e os anjinhos, ou sabe se lá, se não está puxando lenha pra o capeta.
 Pois digo desde agora: não sou santa e nunca serei. Não preguem em mim uma figura da qual nunca fui. Sem babaguices e babações, puxações de saco, histórias fajutas e essas coisas. Não apertem as bochechas dos meus filhos e muito menos perguntem se eles lembram de você quando eles tinham esse “tamanhinho” porque obviamente eles não vão lembrar, não digam que fui um doce de pessoa porque eu sei muito bem que sou muito mais amarga do que doce, não digam que fiz milagres e nem iniciem minha canonização. Quero que tenham o prazer de dizer: essa tinha o demônio no corpo e morreu antes de ser exorcizada. 
                                                 (minha-anfetamina)  

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